Saúde Mental e a geração que fala mandarim... mas não sabe atravessar a rua ;)

Susana Koln

Acabo de ler um estudo publicado em março de 2026 na revista científica internacional Mental Health and Physical Activity que associou excesso de telas e sedentarismo ao aumento de sintomas de ansiedade, tristeza, irritabilidade e sofrimento emocional em adolescentes brasileiros.

Os números chamam atenção. Mas, sinceramente não me surpreenderam. Bem além dos números, gostaria de compartilhar o vejo:

Convivo muuuuito com jovens. Tenho duas filhas jovens adultas, estudantes de medicina e acompanho de perto dezenas de amigos há anos... nossa casa é uma "central de estudantes de medicina" reunidos em vésperas de provas, estudando a base de café, chocolate e remédios. Observo uma geração brilhante, dedicada, consciente e extremamente exigente consigo mesma. Com muitas oportunidades e conhecimento, talvez mais do que qualquer outra geração anterior.

São jovens que cresceram sendo observados, avaliados e comparados o tempo todo. Desde cedo aprenderam que desempenho importa. Que resultados importam. Que produtividade importa.

E, em muitos casos, passaram a acreditar que descansar é perda de tempo.

Vejo meninas e meninos que estudam muito, se preocupam com o futuro, querem fazer tudo certo, carregam uma enorme responsabilidade sobre os próprios ombros e, ao mesmo tempo, convivem diariamente com um volume de estímulos que nenhum de nós conheceu na adolescência, aliás, que a humanidade jamais viu e viveu.

A tela nunca desliga. As mensagens chegam o tempo todo. As redes sociais mostram vidas aparentemente perfeitas. As cobranças acadêmicas aumentam. As expectativas profissionais chegam cada vez mais cedo. A vida é cada mais cara (isso preocupa muito a mim e a vários deles).

Não acredito que o celular seja o grande (ou único) vilão da história. A questão é mais profunda.

O que observo é que muitos jovens e adolescentes perderam espaços fundamentais para o desenvolvimento emocional: momentos de tédio, conversas sem pressa, atividades físicas feitas por prazer, encontros presenciais, tempo ao ar livre, silêncio...

Hoje existe uma tendência crescente de transformar qualquer desconforto em diagnóstico e qualquer sofrimento em algo que precisa ser imediatamente resolvido.

Nunca se falou tanto sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantos jovens e adultos ansiosos, exaustos e inseguros.

Parte disso acontece porque estamos ensinando nossos adolescentes a reconhecer seus sentimentos, e, talvez, estejamos falhando em ensiná-los a lidar com eles.

A atividade física aparece na pesquisa como um fator de proteção importante. E faz bastante sentido. Movimento não é apenas exercício, é descarga emocional, conexão com o próprio corpo, interrupção do fluxo constante de informações e pausa necessária para a mente respirar.

Quando observo os jovens ao meu redor, tenho a impressão de que eles não precisam apenas de menos tela... Precisam de mais vida fora dela, mais experiências reais, mais espaço para errar, mais liberdade para não serem perfeitos.

Saúde mental não nasce apenas da ausência de doença, nasce da presença de vínculos, propósito, movimento, pertencimento e equilíbrio.

Os dados da pesquisa merecem atenção. Mas a principal reflexão talvez seja outra.

Estamos criando uma geração altamente preparada para responder provas, construir currículos e alcançar resultados... minha pergunta é: estamos preparando esses jovens para lidar com a própria vida?

Eu brinco que é a geração que fala mandarim mas não sabe atravessar a rua...